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Apple a US$300: o que o mercado está vendo que os críticos não veem

macmagazine.com.br
Apple a US$300: o que o mercado está vendo que os críticos não veem

Na sexta-feira, 15 de maio de 2026, a ação da Apple [$AAPL] fechou a US$300,23 pela primeira vez na história, com máxima intradiária de US$303,20 e capitalização de mercado de US$4,41 trilhões. 





O gatilho direto foi o balanço do segundo trimestre fiscal de 2026, divulgado em 30 de abril. A Apple relatou uma receita de US$111,2 bilhões (alta de 17% ano a ano), com lucro por ação de US$2,01 — acima dos US$1,95 esperados pelo mercado. A receita do iPhone cresceu 22%; Serviços atingiram US$31 bilhões, em novo recorde histórico; e a margem bruta chegou a 49,3%, bem acima da média histórica da empresa. O conselho aprovou mais um programa de recompra de ações de US$100 bilhões e elevou o dividendo trimestral para US$0,27. Em apenas seis meses (fiscais, de 2026), a Apple gerou US$82,6 bilhões em fluxo de caixa operacional. 





O marco chegou em um momento em que boa parte da crítica especializada tem criticado a obsolescência da empresa em relação aos avanços globais da inteligência artificial. Pelo que os números indicam, o mercado discordou, com força e com dados. O que será que o mercado viu que os críticos não estão vendo? Vamos analisar neste post.





IA: ganhos e riscos





A narrativa mais frequente dos últimos 18 meses tinha uma lógica aparente: enquanto a Microsoft integrou o ChatGPT ao Windows e ao Microsoft 365, o Google reinventou sua busca com o Gemini e a NVIDIA se transformou na principal fornecedora de infraestrutura de IA do planeta, a Maçã entregou a Apple Intelligence de forma fragmentada e adiou funcionalidades prometidas da Siri. O argumento de que a Apple “ficou para trás” virou quase consenso entre analistas cautelosos como UBS e Rosenblatt.





Eu já comentei sobre isso aqui no post sobre os 50 anos da Apple, mas vale um complemento. O problema é que esse argumento compara produtos e ignora modelos de negócio. Além disso, a análise não leva em consideração um risco que o mercado começou a precificar com atenção crescente: a possibilidade de que a corrida de investimentos em IA generativa esteja produzindo uma das maiores bolhas de capital da história recente do setor.





Essa é uma visão polêmica e difícil de ser definida com precisão, até porque uma das características de uma bolha é não ser percebida por quem está dentro dela. Mas não há como negar que os números são perturbadores.





Alphabet, Amazon, Microsoft e Meta planejam investir, coletivamente, US$725 bilhões em infraestrutura de IA só em 2026, uma alta de 77% sobre os já recordes US$410 bilhões investidos em 2025. Analistas do Bank of America calcularam que o capex (o dinheiro que uma empresa investe em ativos de longo prazo) agregado dessas empresas já representava 94% do fluxo de caixa operacional líquido em 2025 e projetado para 2026.





Essas empresas estão gastando quase tudo o que geram — às vezes mais — para construir uma infraestrutura cujo retorno financeiro mensurável ainda é amplamente especulativo. Nas conferências de resultados de 2025, analistas fizeram a pergunta diretamente aos CEOs: “Estamos em uma bolha?” Um estudo do MIT, publicado em agosto de 2025, concluiu que 95% dos projetos de IA generativa em empresas falharam em entregar retorno mensurável sobre o investimento.





A Apple, por construção, está estruturalmente isolada desse risco. A empresa não opera uma nuvem pública de IA, não vende capacidade de processamento para terceiros e não precisa convencer o mercado de que gastos em GPUs 1 vão gerar retorno em dois anos. Seu modelo de IA é diferente: levar inteligência para dentro de dispositivos que já existem, já foram pagos e já têm 2,5 bilhões de usuários ativos ao redor do mundo.





Quando a Apple lançar a nova camada de IA na WWDC26, em 8 de junho, não precisará convencer usuários a assinar um novo serviço ou criar uma conta em uma plataforma desconhecida. A atualização chegará a centenas de milhões de iPhones, iPads e Macs em dias. Nenhum concorrente tem esse vetor de distribuição.





Um outro fator de proteção da Apple é a mudança em sua composição de receita. O segmento Serviços cresceu de US$26,6 bilhões no segundo trimestre de 2025 para US$31 bilhões no mesmo período de 2026, alta de 16%. A margem bruta desse segmento supera incríveis 76%, contra cerca de 40% nos produtos físicos — ou seja, os serviços da empresa crescem ao dobro do ritmo do hardware e são duas vezes mais lucrativos por unidade de receita.





Apple vs. Microsoft vs. Google





Comparar o desempenho acionário da Apple com o da Microsoft e do Google nos últimos dois anos revela histórias muito distintas por trás de números superficialmente parecidos.





A Microsoft acumula apenas +1,1% em 24 meses e recuou 6,3% nos últimos 12 meses — sinalizando que o pico veio antes, não depois. O motivo é conhecido: a empresa apostou pesado em IA generativa via OpenAI, integrou o Copilot em seus produtos e anunciou um capex anual de US$190 bilhões para 2026, o maior de sua história. Os resultados operacionais continuam sólidos, mas o mercado passou a descontar o risco de que o retorno sobre esse investimento demore mais do que o esperado. A ação chegou a US$555 em julho de 2025 e recuou quase 25% antes da recuperação parcial dos últimos três meses — que entregou +5,1%, sinalizando algum alívio, mas longe de recuperar o terreno perdido.





A Alphabet (Google) apresenta o caso mais complexo. Sua variação de 129% em 24 meses parece extraordinária, mas esconde uma base comparativa bastante deprimida: a ação chegou a US$140 em abril de 2025, pressionada por temores de que a busca por IA estivesse corroendo a receita de publicidade do Google Search. A recuperação para US$400 reflete o reconhecimento de que o núcleo do negócio resistiu melhor do que os pessimistas previam, e que o Google Cloud cresceu 63% no primeiro trimestre de 2026.





Ainda assim, a empresa enfrenta o mesmo dilema estrutural da Microsoft: gastos de capex de US$175–190 bilhões em 2026, com incerteza regulatória crescente no mundo todo e um processo antitruste que pode redefinir o funcionamento da busca nos Estados Unidos. No curto prazo, a recuperação foi real. No médio prazo, o risco do excesso de capex não desapareceu.







A Apple navegou esse período de forma diferente. Seus gastos em IA são menores em escala absoluta, mas concentrados em funcionalidades que chegam diretamente ao consumidor via sistema operacional, sem depender de grandes clientes corporativos para justificar o investimento. O resultado, em termos acionários, é uma trajetória mais estável: +59,3% em 24 meses, com a maior parte da valorização ocorrendo nos últimos 12 meses, quando o mercado começou a rever a narrativa do “atraso”.





As duas tabelas abaixo consolidam os fechamentos verificados em fontes primárias e o cálculo de variação pelo critério (preço hoje – preço de referência) / preço de referência para cada janela.





Ativo15/5/2024 (24M)15/5/2025 (12M)28/11/2025 (6M)13/2/2026 (3M)15/5/2026 (hoje)
$AAPLUS$188,26US$196†US$228,87US$255,78US$300,23
$NVDAUS$94,58N/DUS$138,20US$186,94US$225,32
$MSFTUS$417,44US$450,51US$420,36US$401,32US$421,92
$GOOGUS$171,10N/DN/DUS$305,72US$396,78
Nasdaq16.735†19.14718.81422.54726.225
S&P 5005.308†5.8936.8496.8367.409








† Aproximação: fechamento do pregão mais próximo verificável (margem ≤ 2 dias úteis).
N/D: dado não confirmado em fonte primária.
Fontes: StatMuse, FRED St. Louis Fed, StockAnalysis.com, MacroTrends, Yahoo Finance, Nasdaq.com e CBS News.








AtivoPreço em 15/5/202624 meses*12 meses**6 meses***3 meses****
Apple ($AAPL)US$300,2359,3%53,2%31,2%17,4%
NVIDIA ($NVDA)US$225,32138,2%N/D66,5%20,5%
Microsoft ($MSFT)US$421,921,1%–6,3%0,4%5,1%
Alphabet ($GOOG)US$396,78131,8%N/DN/D29,8%
Nasdaq Composite26.225+56,7%†37%39,4%16,3%
S&P 5007.409+39,6%†25,7%8,2%8,4%








(*) 24M: vs. 15/05/2024.
(**) 12M: vs. 15/05/2025.
(***) 6M: vs. 28/11/2025.
(****) 3M: vs. 13/02/2026.
† Aproximação: fechamento do pregão mais próximo verificável (margem ≤ 2 dias úteis).
N/D: base não verificada em fonte primária.
Nota sobre o GOOG: a variação elevada nos 24 meses parte de base comparativa deprimida (mínima de US$140 em abr/2025) — não reflete crescimento linear estável.








O que está por vir





A WWDC26 tornou-se o evento mais aguardado do calendário da Apple dos últimos anos. O mercado espera um novo capítulo da Apple Intelligence com uma Siri mais capaz e ferramentas de IA nativas nos aplicativos de produtividade.





Analistas do Wedbush Securities, com um dos alvos mais altos de Wall Street (US$350, em revisão para US$400), argumentam que a monetização de funcionalidades de IA poderá adicionar entre US$75 e US$100 por ação nos próximos anos. Uma apresentação convincente consolidará a reavaliação que os US$300 já antecipam. Uma apresentação fraca pode fazer essa barreira parecer prematura.





Seria desonesto ignorar as ressalvas legítimas. A Apple moveu-se mais devagar do que seus concorrentes em IA generativa. O índice preço/lucro de 36 vezes está acima da média histórica da empresa, o que deixa pouca margem para erros de execução. O litígio iminente com a OpenAI, que questiona a implementação do ChatGPT no iOS como substituta de funcionalidades prometidas, é um risco real. A dependência do iPhone como motor principal de receita torna a empresa vulnerável a ciclos de troca mais longos.





O que a narrativa crítica perde, no entanto, é a dimensão da dificuldade de replicar o que a Apple construiu. Qualquer empresa pode lançar um modelo de linguagem. Nenhuma empresa tem 2,5 bilhões de dispositivos com hardware proprietário, sistema operacional integrado, loja de aplicativos e um ecossistema de serviços que gera mais de US$100 bilhões ao ano em receita recorrente de altíssima margem. Enquanto seus concorrentes aceleraram para liderar a corrida da IA, a Apple ficou de fora dessa bolha por design.





O mercado, desta vez, está recompensando exatamente essa escolha.


Notas de rodapé

1    Graphics processing units, ou unidades de processamento gráfico.




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